quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Morte e literatura

O texto que se segue é uma resenha sobre o livro organizado pela professora Lélia Parreira Duarte, cuja referência completa está indicada ao final. A resenha foi escrita em 2009 e seria, foi ou será publicada na revista Scripta, da PUC de Minas Gerais.
De Orfeu e de Perséfone: morte e literatura
Este é o segundo livro resultante das pesquisas desenvolvidas pelo grupo de estudos da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais que tem se dedicado às figurações da morte na literatura, é a ratificação da qualidade do trabalho sólido e coeso que vem sendo capitaneado por Lélia Parreira Duarte e do qual tivemos prova já em 2006, com a edição do primeiro livro. Nas palavras de sua organizadora, os estudos que compõem o presente volume abordam obras que fazem revelar a sobreposição entre “os cantos de Orfeu e as máscaras de Perséfone” por meio de textos que “falam de passagem pela morte, de esvaziamento de sentido, de melancolia e de negatividade” (p. 12). Tal negatividade não deve ser entendida apenas enquanto representação literária, mas enquanto constitutiva da própria literatura, uma vez que os textos objetos dos estudos, “por revelarem a consciência de seu caráter de linguagem”, promovem a “exibição do vazio e da falta que caracterizam o sujeito”, trata-se, pois, de textos que não pretendem “que a literatura seja a representação de algo fora dela” (p.12). Ainda segundo Duarte, “a literatura que se estuda nesta pesquisa é a que cria o objeto, sem representar ou imitar algo que existe no mundo – tornando-se paradoxalmente a realização de uma irrealização.” (p.13)
            Esta concepção de literatura expressa já na apresentação do volume e que norteia, de maneira geral, as pesquisas do grupo de estudos encontra sua base no pensamento de Maurice Blanchot, o qual se constitui no referencial teórico que emoldura a maioria dos ensaios do volume: dos dezenove trabalhos que o compõem, apenas seis não o citam diretamente. Essas dezenove vozes que constituem o coro orquestrado por Duarte versam sobre os mais diferentes gêneros textuais: romance, conto, poesia, relato biográfico, peça teatral, diário e, até, arte visual. Desta vez, os trabalhos vão além da literatura brasileira e portuguesa, apesar de ser desta última a predominância. São trezes ensaios sobre os portugueses, três sobre brasileiros, um que relaciona um autor português a um brasileiro, um sobre literatura açoriana e um sobre Kafka. A orelha do volume é assinada por Márcio Seligmann-Silva, que cumpre a tarefa não apenas de apresentá-lo precisa e sucintamente, mas, inclusive, faz uma esclarecedora incursão pela história dos mitos de Orfeu e de Perséfone. Destaque especial deve ser dado às imagens da capa do volume que, apesar de sugerirem a morte duplamente, dependem de um olhar atento para interpretá-las: a imagem do granito que preenche a capa e contracapa sugere a lápide de um túmulo e sobre esta se percebe uma sombra, ou uma espécie de mancha sobre a pedra. Impossível não associar esta mancha negra que se afila sobre o tom claro da pedra à lâmina de uma foice. Anotadas estas curiosidades imagéticas, vamos aos ensaios.
            O autor que figura como objeto de estudo no ensaio de abertura é também o que é abordado num maior número de vezes: são quatro trabalhos sobre António Lobo Antunes. Cid Ottoni Bylaardt aborda a relação entre a representação da escrita e da morte em algumas personagens de A ordem natural das coisas e mostra como esta narrativa expressa o caráter dicotômico da literatura de constituir a sua presença na ausência e de sempre “responder ao que escapa à compreensão do dia”, sem, contudo, oferecer uma “resposta apaziguadora” (p. 41) Sob a mesma perspectiva de entendimento da literatura, Eugênio Drumond realiza a sua leitura da terceira obra de Lobo Antunes, Conhecimento do inferno. Nela, procura investigar as figurações da morte por meio da relação que estabelece entre as noções de escrita e figuração, relação esta que extrai do uso do termo “graphéin” segundo é feito no diálogo Fedro de Platão. Já Glaura Cardoso Vale explora a relação entre morte e literatura que se faz emanar da própria configuração da narrativa de Lobo Antunes, em especial a de sua segunda obra, Os cus de Judas.  Cardoso Vale investiga o funcionamento da representação do processo de rememoração operado pela narrativa e constata que esta é ultrapassada pelo “jogo sonoro e imagético impresso pela poesia que se realiza no texto” (p.196). O “discurso errante” da narrativa antuniana, “certo da impossibilidade de compreender o que narra” (p.196), acaba por converter-se em poesia e, portanto, faz surgir sentidos de onde aparentemente não os havia. Soma-se a esses três ensaios sobre Lobo Antunes o de Silvana Pessôa de Oliveira, em que trabalha a questão da finitude na ficção do autor português, principalmente em seu A morte de Carlos Gardel. Para tanto, Pessoa mobiliza os conceitos de “bela morte” proveniente da poesia épica e de “morrer contente” de Blanchot. A partir do trabalho paralelo com estas duas noções, a autora define a narrativa desta obra de Lobo Antunes como um canto órfico, principalmente aquela feita a partir da voz da personagem Nuno, por meio da qual se utiliza o procedimento de “narrar a morte de dentro” (p.414).
Grande espaço do volume é dedicado aos romancistas portugueses. Além de Lobo Antunes, há dois trabalhos sobre José Cardoso Pires. Flávia Nascimento, de maneira original e consistente, procura investigar as figurações da morte em Balada da praia dos cães a partir da formulação de uma estética barroca bastante particular. Para responder à questão sobre a delimitação do caráter moderno da obra, Nascimento lança mão da concepção de barroco proposta por Walter Benjamin e do conceito de “desgenerização” formulado por Gérard Genette. Aplicando este conceito para entender o duplo movimento de aproximação e distanciamento desta obra à estrutura formal de um romance policial, a ensaísta propõe que a “desgenerização” constitui uma estética barroca que exprime a negatividade do moderno que seria, afinal, também uma forma de figuração da morte. A José Cardoso Pires é dedicado outro ensaio, mas não propriamente a um seu romance. Luci Ruas analisa a relação entre tempo, memória e construção da subjetividade na obra em que Cardoso Pires relata o período de sua vida em que se viu privado da faculdade plena da linguagem por ter sido acometido por um acidente vascular cerebral. Ruas atém-se, principalmente, à analise da idéia de “morte branca” formulada pelo autor em seu comovente De profundis, valsa lenta.   
            Ainda no que se refere aos romancistas portugueses, há o trabalho realizado por Dalva Calvão sobre Agustina Bessa-Luís, em especial sobre sua obra de 1983, intitulada Os meninos de ouro. Apoiada em Blanchot, Calvão procura evidenciar a condição de “fora do real” da narrativa de Bessa-Luís e, ao explorar as reverberações de Swift, Maquiavel e de Freud na obra da romancista portuguesa, procura também investigar a relação entre escrita e ausência. Tal antinomia pode ser vista encenada neste romance, lugar em que se dá a “autonomia da escrita, atividade forjada sobre a ausência, onde a suposta lógica do referente pode ser anulada, e onde todas as aparições podem se dar.” (p.107) Além de Agustina Bessa-Luís, a obra de outra romancista é alvo de estudo, trata-se de Julieta Monginho. Maria Theresa Abelha Alves trabalha, sob uma perspectiva psicanalítica e musical, a relação entre paixão e infidelidade ao analisar o triângulo amoroso formado pelas personagens do romance intitulado A Paixão segundo os infiéis. Conclui Abelha Alves que a “junção das duas teorias dos afetos, a psicanalítica e a musical, no romance de Julieta Monginho, faz-se como um verdadeiro tributo à arte de contar.” (p. 303) Também à análise da arte de contar do romance se dedica Teresa Cristina Cerdeira, no ensaio que fecha o volume, ao analisar Sem nome, de Helder Macedo. Conforme diz Cerdeira, o corte escolhido para a presente leitura do romance foi no sentido de “repensar o desvio do fantástico, a dissolução dos fantasmas e, sobretudo, a matéria da morte” (p.437). Por dissolução dos fantasmas, Cerdeira não deixa de entender também o problema das “relações que esse romance necessariamente mantém com a biblioteca particular do seu autor” (p. 438).
            No âmbito da prosa ficcional portuguesa, dois trabalhos se ocupam da obra de Maria Judite de Carvalho, mais especificamente sobre o volume de contos de 1995, intitulado Seta despedida. Num primeiro ensaio, Helena Carvalhão Buescu faz uma interpretação do estado de negatividade das personagens femininas de alguns contos do referido volume a partir das noções de “banimento” e de “vida nua” formuladas pelo teórico italiano Giorgio Agamben. No segundo ensaio, Lélia Parreira Duarte analisa o mesmo volume de contos, mas sob a perspectiva de Blanchot, procurando especialmente delinear como ocorre a representação da “experiência da morte sem morrer” em contos como “Frio”, “A alta”, “Impressões digitais”, “Absolvição” e no próprio conto que dá título ao livro.
            Além de percorrer a prosa de ficção, o olhar sobre a literatura portuguesa é estendido ao teatro e à poesia. Renata Soares Junqueira realiza a leitura de uma peça de Hélia Correia, de 1949, intitulada Florbela. Em sua análise, Junqueira procura trabalhar a dicotomia morte e renascimento, principalmente o estatuto mítico de sua personagem principal: Florbela Espanca. Para tanto, Junqueira também parte do aparato teórico de Blanchot; antes, contudo, apresenta uma esclarecedora exposição teórica sobre um possível traçado do histórico do pensamento ao qual o teórico francês parece filiar-se, indo de Schopenhauer, passando por Oscar Wilde e pelos pensadores do decadentismo e simbolismo. Também apoiada em Blanchot, Ida Ferreira Alves trabalha, em seu ensaio, a moderna poesia portuguesa de Ruy Belo, poeta morto em 1978. Alves pensa a “errância na linguagem” de sua poesia, segundo diz, enquanto “atitude frente à morte e um exercício de pensamento sobre a finitude, a memória e o esquecimento.” (p.241)      
A moderna poesia portuguesa também é o objeto de estudo de Rogério Barbosa da Silva, que aborda a poesia visual do poeta Fernando Aguiar e a compreende a partir do ponto de contato com a literatura brasileira, ao propor uma comparação com a obra de Augusto de Campos. Pela leitura de parte da obra de ambos os autores, Barbosa da Silva pretende mostrar que “o jogo entre o visual e o verbal apresenta um dos modos de configuração da morte na literatura” (p.387) Para o ensaísta, a poética anti-representacional de Augusto de Campos e de Fernando Aguiar “contém algo capaz de problematizar essa questão do vazio, e com ela a morte.” (p. 392)
Além de referida nesse ensaio “comparativo”, a literatura brasileira aparece em mais três trabalhos. Clara Rowland procura pensar a relação entre conhecimento e temporalidade em Grande sertão: veredas. Rowland começa a sua análise estabelecendo a noção de “temporalidade tardia do reconhecimento da tragédia” a partir do exemplo da “carta de um desconhecido” de Stefan Zeweig; tendo em vista essa noção, passa a trabalhar a função temporal na narrativa de Guimarães Rosa que tematiza a carta enviada a Riobaldo pela prostituta Nhorinhá. Em seguida, analisa a relação desta personagem com Diadorim e as relações entre a carta, a linguagem e a morte em Grande sertão: veredas. Ao lado do ensaio sobre Guimarães Rosa, figura um importante ensaio sobre a poesia de João Cabral. Matildes Demétrio dos Santos investiga “a luz pelas trevas e a morbidez” no que entende serem as “paisagens” do poeta pernambucano. Segundo Santos, “fica claro para João Cabral que a arte é a via que permite acesso ao mundo não iluminado da vida, aquele onde se encontra a morte.” (p.330) Ao lado desses dois cânones da literatura brasileira, figura o contemporâneo Milton Hatoum. Denis Leandro Francisco também se aproveita da noção de “morte contente” de Blanchot para realizar sua leitura de Relato de um certo Oriente. Para Francisco, o romance de Hatoum garantiria a “morte contente” de que fala Blanchot, pois o próprio ato de narrar seria o “lugar da experiência da morte” (p. 129).
 Afora as literaturas brasileira e portuguesa, há espaço ainda, como já foi dito, para a literatura açoriana. Esta é abordada por Mônica Figueiredo ao analisar a obra Gente feliz com lágrimas, de João de Melo. Figueiredo entende a narrativa de João de Melo como um “refinado e lúcido instrumento de sobrevivência”, em especial porque é “pela necessidade do relato que as personagens recusarão o ´lugar do morto`.” (p. 344) Esse lugar do morto, por conseguinte, expressa-se em temas caros à problemática da identidade açoriana tais como a “história de desabrigo, seja através do relato da tragédia da emigração, seja através do relato da inospitalidade de Portugal...”(p. 358).
O único ensaio do volume que não aborda a literatura em língua portuguesa é o de Tatiana Salem Levy, que escreve sobre a morte e a herança a partir de uma leitura do Diário de Kafka. Não por isso a voz de Levy destoa dos demais ensaios, muito pelo contrário, mostra-se em perfeita consonância com o coro de vozes regidas por Parreira Duarte, sendo citada por esta desde a apresentação do volume, bem como por outras vozes em vários outros ensaios. Tatiana Salem Levy parece dar o tom exato do livro quando considera que a “linguagem literária tem na impossibilidade a sua possibilidade” e que “ela deve o seu sentido não ao que existe, mas ao recuo diante da existência”, visto que “está ligada ao vazio, a uma falta essencial” (p. 421). Diante disso, Levy considera que não se escreve para se salvar, mas para aprender a morrer e esse aprendizado depende de como se lida com a relação entre escrita e herança. Embora esta seja imposta, continua Levy, “quem define a direção a ser seguida é o herdeiro, aquele que conversa com o fantasma” (p. 428). Para Levy, a “obra de Kafka se constrói como a elaboração de uma herança” (p.428), o que poderia ser estendido em reflexo a toda produção literária que só pode “ser fiel sendo infiel” (p.428).
Ao atentar para a relação entre herança e escrita e para a função da interpretação enquanto elaboração da tradição, Levy lança luzes sobre o papel dos próprios ensaios que compõem o volume, sobre o lugar da interpretação que se coloca entre a literatura e o vazio que ela preenche e de onde ela emana. Nesse sentido, a própria existência desse livro de ensaios sobre morte e literatura sugere a presença de um lugar especial que se situa entre Orpheu e Perséfone, o lugar de Hermes. Segundo uma das versões da mitologia, Hermes, o mensageiro dos deuses e, para alguns, a origem do termo hermenêutica, teria sido o primeiro a ir buscar Perséfone ao reino dos mortos, acompanhado por Deméter. Se a alegoria serve, é para chamar a atenção para o lugar da interpretação entre a morte e a literatura. Em certo sentido, a interpretação é anterior e posterior à literatura. A interpretação é constitutiva da literatura não apenas porque esta precisa lidar com sua herança, mas porque reserva um lugar àquela em seu devir. E é a esse devir que pertence a arte de que temos excelentes exemplos nos ensaios que compõem o presente volume.      

DUARTE, Lélia Parreira (org.) De Orfeu e de Perséfone: morte e literatura. Cotia, SP: Ateliê Editorial; Belo Horizonte, MG: Editora PUC Minas, 2008. (448 pp.)

Nas Trilhas do Lobo



Novos Estudos 83
 
O artigo Nas Trilhas do Lobo é um ensaio interpretativo sobre as variações formais nos modos de construção narrativa do autor português António Lobo Antunes. Este artigo foi publicado em março de 2009 na edição de  número 83, da Revista Novos Estudos do CEBRAP. O interessante é que o artigo serviu de mote para o tratamento gráfico da revista: o lobo figura na capa e permeia suas páginas, percorrendo suas trilhas pelos artigos. É possível acessar também este texto na base de artigos Scielo.

A Valsa das Borboletas


O artigo A Valsa das Borboletas foi publicado na seção Palavra 49, da edição on line do Jornal Le Monde diplomatique. A indicação do texto eu deixo por conta do editor Rodrigo Gurgel, que o apresentou da seguinte forma:
 “Luís Fernando Prado Telles analisa De profundis, valsa lenta, do escritor português José Cardoso Pires, e O escafandro e a borboleta, do jornalista francês Jean-Dominique Bauby, obras que enfocam o limbo da doença, essa impertinente manifestação dos nossos limites, lembrança incômoda - e às vezes destrutiva - do quanto estamos acorrentados à natureza. Como afirma Alexandre Dumas, citado por Prado Telles, poucos de nós não se transformarão em "um cadáver de olhar vivo". Mas qual a linguagem escolhida por escritores para falar das próprias doenças? E, diante desses dois livros tão antagônicos, ainda que unidos pelo mesmo tema, a linguagem não se tornaria definitivamente aquilo que suspeitamos: apenas uma sombra, apenas um sintoma?” (Texto publicado em 05/12/2008)