O texto que se segue é uma resenha sobre o livro organizado pela professora Lélia Parreira Duarte, cuja referência completa está indicada ao final. A resenha foi escrita em 2009 e seria, foi ou será publicada na revista Scripta, da PUC de Minas Gerais.
De Orfeu e de Perséfone: morte e literatura
Este é o segundo livro resultante das pesquisas desenvolvidas pelo grupo de estudos da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais que tem se dedicado às figurações da morte na literatura, é a ratificação da qualidade do trabalho sólido e coeso que vem sendo capitaneado por Lélia Parreira Duarte e do qual tivemos prova já em 2006, com a edição do primeiro livro. Nas palavras de sua organizadora, os estudos que compõem o presente volume abordam obras que fazem revelar a sobreposição entre “os cantos de Orfeu e as máscaras de Perséfone” por meio de textos que “falam de passagem pela morte, de esvaziamento de sentido, de melancolia e de negatividade” (p. 12). Tal negatividade não deve ser entendida apenas enquanto representação literária, mas enquanto constitutiva da própria literatura, uma vez que os textos objetos dos estudos, “por revelarem a consciência de seu caráter de linguagem”, promovem a “exibição do vazio e da falta que caracterizam o sujeito”, trata-se, pois, de textos que não pretendem “que a literatura seja a representação de algo fora dela” (p.12). Ainda segundo Duarte, “a literatura que se estuda nesta pesquisa é a que cria o objeto, sem representar ou imitar algo que existe no mundo – tornando-se paradoxalmente a realização de uma irrealização.” (p.13)
Esta concepção de literatura expressa já na apresentação do volume e que norteia, de maneira geral, as pesquisas do grupo de estudos encontra sua base no pensamento de Maurice Blanchot, o qual se constitui no referencial teórico que emoldura a maioria dos ensaios do volume: dos dezenove trabalhos que o compõem, apenas seis não o citam diretamente. Essas dezenove vozes que constituem o coro orquestrado por Duarte versam sobre os mais diferentes gêneros textuais: romance, conto, poesia, relato biográfico, peça teatral, diário e, até, arte visual. Desta vez, os trabalhos vão além da literatura brasileira e portuguesa, apesar de ser desta última a predominância. São trezes ensaios sobre os portugueses, três sobre brasileiros, um que relaciona um autor português a um brasileiro, um sobre literatura açoriana e um sobre Kafka. A orelha do volume é assinada por Márcio Seligmann-Silva, que cumpre a tarefa não apenas de apresentá-lo precisa e sucintamente, mas, inclusive, faz uma esclarecedora incursão pela história dos mitos de Orfeu e de Perséfone. Destaque especial deve ser dado às imagens da capa do volume que, apesar de sugerirem a morte duplamente, dependem de um olhar atento para interpretá-las: a imagem do granito que preenche a capa e contracapa sugere a lápide de um túmulo e sobre esta se percebe uma sombra, ou uma espécie de mancha sobre a pedra. Impossível não associar esta mancha negra que se afila sobre o tom claro da pedra à lâmina de uma foice. Anotadas estas curiosidades imagéticas, vamos aos ensaios.
O autor que figura como objeto de estudo no ensaio de abertura é também o que é abordado num maior número de vezes: são quatro trabalhos sobre António Lobo Antunes. Cid Ottoni Bylaardt aborda a relação entre a representação da escrita e da morte em algumas personagens de A ordem natural das coisas e mostra como esta narrativa expressa o caráter dicotômico da literatura de constituir a sua presença na ausência e de sempre “responder ao que escapa à compreensão do dia”, sem, contudo, oferecer uma “resposta apaziguadora” (p. 41) Sob a mesma perspectiva de entendimento da literatura, Eugênio Drumond realiza a sua leitura da terceira obra de Lobo Antunes, Conhecimento do inferno. Nela, procura investigar as figurações da morte por meio da relação que estabelece entre as noções de escrita e figuração, relação esta que extrai do uso do termo “graphéin” segundo é feito no diálogo Fedro de Platão. Já Glaura Cardoso Vale explora a relação entre morte e literatura que se faz emanar da própria configuração da narrativa de Lobo Antunes, em especial a de sua segunda obra, Os cus de Judas. Cardoso Vale investiga o funcionamento da representação do processo de rememoração operado pela narrativa e constata que esta é ultrapassada pelo “jogo sonoro e imagético impresso pela poesia que se realiza no texto” (p.196). O “discurso errante” da narrativa antuniana, “certo da impossibilidade de compreender o que narra” (p.196), acaba por converter-se em poesia e, portanto, faz surgir sentidos de onde aparentemente não os havia. Soma-se a esses três ensaios sobre Lobo Antunes o de Silvana Pessôa de Oliveira, em que trabalha a questão da finitude na ficção do autor português, principalmente em seu A morte de Carlos Gardel. Para tanto, Pessoa mobiliza os conceitos de “bela morte” proveniente da poesia épica e de “morrer contente” de Blanchot. A partir do trabalho paralelo com estas duas noções, a autora define a narrativa desta obra de Lobo Antunes como um canto órfico, principalmente aquela feita a partir da voz da personagem Nuno, por meio da qual se utiliza o procedimento de “narrar a morte de dentro” (p.414).
Grande espaço do volume é dedicado aos romancistas portugueses. Além de Lobo Antunes, há dois trabalhos sobre José Cardoso Pires. Flávia Nascimento, de maneira original e consistente, procura investigar as figurações da morte em Balada da praia dos cães a partir da formulação de uma estética barroca bastante particular. Para responder à questão sobre a delimitação do caráter moderno da obra, Nascimento lança mão da concepção de barroco proposta por Walter Benjamin e do conceito de “desgenerização” formulado por Gérard Genette. Aplicando este conceito para entender o duplo movimento de aproximação e distanciamento desta obra à estrutura formal de um romance policial, a ensaísta propõe que a “desgenerização” constitui uma estética barroca que exprime a negatividade do moderno que seria, afinal, também uma forma de figuração da morte. A José Cardoso Pires é dedicado outro ensaio, mas não propriamente a um seu romance. Luci Ruas analisa a relação entre tempo, memória e construção da subjetividade na obra em que Cardoso Pires relata o período de sua vida em que se viu privado da faculdade plena da linguagem por ter sido acometido por um acidente vascular cerebral. Ruas atém-se, principalmente, à analise da idéia de “morte branca” formulada pelo autor em seu comovente De profundis, valsa lenta.
Ainda no que se refere aos romancistas portugueses, há o trabalho realizado por Dalva Calvão sobre Agustina Bessa-Luís, em especial sobre sua obra de 1983, intitulada Os meninos de ouro. Apoiada em Blanchot, Calvão procura evidenciar a condição de “fora do real” da narrativa de Bessa-Luís e, ao explorar as reverberações de Swift, Maquiavel e de Freud na obra da romancista portuguesa, procura também investigar a relação entre escrita e ausência. Tal antinomia pode ser vista encenada neste romance, lugar em que se dá a “autonomia da escrita, atividade forjada sobre a ausência, onde a suposta lógica do referente pode ser anulada, e onde todas as aparições podem se dar.” (p.107) Além de Agustina Bessa-Luís, a obra de outra romancista é alvo de estudo, trata-se de Julieta Monginho. Maria Theresa Abelha Alves trabalha, sob uma perspectiva psicanalítica e musical, a relação entre paixão e infidelidade ao analisar o triângulo amoroso formado pelas personagens do romance intitulado A Paixão segundo os infiéis. Conclui Abelha Alves que a “junção das duas teorias dos afetos, a psicanalítica e a musical, no romance de Julieta Monginho, faz-se como um verdadeiro tributo à arte de contar.” (p. 303) Também à análise da arte de contar do romance se dedica Teresa Cristina Cerdeira, no ensaio que fecha o volume, ao analisar Sem nome, de Helder Macedo. Conforme diz Cerdeira, o corte escolhido para a presente leitura do romance foi no sentido de “repensar o desvio do fantástico, a dissolução dos fantasmas e, sobretudo, a matéria da morte” (p.437). Por dissolução dos fantasmas, Cerdeira não deixa de entender também o problema das “relações que esse romance necessariamente mantém com a biblioteca particular do seu autor” (p. 438).
No âmbito da prosa ficcional portuguesa, dois trabalhos se ocupam da obra de Maria Judite de Carvalho, mais especificamente sobre o volume de contos de 1995, intitulado Seta despedida. Num primeiro ensaio, Helena Carvalhão Buescu faz uma interpretação do estado de negatividade das personagens femininas de alguns contos do referido volume a partir das noções de “banimento” e de “vida nua” formuladas pelo teórico italiano Giorgio Agamben. No segundo ensaio, Lélia Parreira Duarte analisa o mesmo volume de contos, mas sob a perspectiva de Blanchot, procurando especialmente delinear como ocorre a representação da “experiência da morte sem morrer” em contos como “Frio”, “A alta”, “Impressões digitais”, “Absolvição” e no próprio conto que dá título ao livro.
Além de percorrer a prosa de ficção, o olhar sobre a literatura portuguesa é estendido ao teatro e à poesia. Renata Soares Junqueira realiza a leitura de uma peça de Hélia Correia, de 1949, intitulada Florbela. Em sua análise, Junqueira procura trabalhar a dicotomia morte e renascimento, principalmente o estatuto mítico de sua personagem principal: Florbela Espanca. Para tanto, Junqueira também parte do aparato teórico de Blanchot; antes, contudo, apresenta uma esclarecedora exposição teórica sobre um possível traçado do histórico do pensamento ao qual o teórico francês parece filiar-se, indo de Schopenhauer, passando por Oscar Wilde e pelos pensadores do decadentismo e simbolismo. Também apoiada em Blanchot, Ida Ferreira Alves trabalha, em seu ensaio, a moderna poesia portuguesa de Ruy Belo, poeta morto em 1978. Alves pensa a “errância na linguagem” de sua poesia, segundo diz, enquanto “atitude frente à morte e um exercício de pensamento sobre a finitude, a memória e o esquecimento.” (p.241)
A moderna poesia portuguesa também é o objeto de estudo de Rogério Barbosa da Silva, que aborda a poesia visual do poeta Fernando Aguiar e a compreende a partir do ponto de contato com a literatura brasileira, ao propor uma comparação com a obra de Augusto de Campos. Pela leitura de parte da obra de ambos os autores, Barbosa da Silva pretende mostrar que “o jogo entre o visual e o verbal apresenta um dos modos de configuração da morte na literatura” (p.387) Para o ensaísta, a poética anti-representacional de Augusto de Campos e de Fernando Aguiar “contém algo capaz de problematizar essa questão do vazio, e com ela a morte.” (p. 392)
Além de referida nesse ensaio “comparativo”, a literatura brasileira aparece em mais três trabalhos. Clara Rowland procura pensar a relação entre conhecimento e temporalidade em Grande sertão: veredas. Rowland começa a sua análise estabelecendo a noção de “temporalidade tardia do reconhecimento da tragédia” a partir do exemplo da “carta de um desconhecido” de Stefan Zeweig; tendo em vista essa noção, passa a trabalhar a função temporal na narrativa de Guimarães Rosa que tematiza a carta enviada a Riobaldo pela prostituta Nhorinhá. Em seguida, analisa a relação desta personagem com Diadorim e as relações entre a carta, a linguagem e a morte em Grande sertão: veredas. Ao lado do ensaio sobre Guimarães Rosa, figura um importante ensaio sobre a poesia de João Cabral. Matildes Demétrio dos Santos investiga “a luz pelas trevas e a morbidez” no que entende serem as “paisagens” do poeta pernambucano. Segundo Santos, “fica claro para João Cabral que a arte é a via que permite acesso ao mundo não iluminado da vida, aquele onde se encontra a morte.” (p.330) Ao lado desses dois cânones da literatura brasileira, figura o contemporâneo Milton Hatoum. Denis Leandro Francisco também se aproveita da noção de “morte contente” de Blanchot para realizar sua leitura de Relato de um certo Oriente. Para Francisco, o romance de Hatoum garantiria a “morte contente” de que fala Blanchot, pois o próprio ato de narrar seria o “lugar da experiência da morte” (p. 129).
Afora as literaturas brasileira e portuguesa, há espaço ainda, como já foi dito, para a literatura açoriana. Esta é abordada por Mônica Figueiredo ao analisar a obra Gente feliz com lágrimas, de João de Melo. Figueiredo entende a narrativa de João de Melo como um “refinado e lúcido instrumento de sobrevivência”, em especial porque é “pela necessidade do relato que as personagens recusarão o ´lugar do morto`.” (p. 344) Esse lugar do morto, por conseguinte, expressa-se em temas caros à problemática da identidade açoriana tais como a “história de desabrigo, seja através do relato da tragédia da emigração, seja através do relato da inospitalidade de Portugal...”(p. 358).
O único ensaio do volume que não aborda a literatura em língua portuguesa é o de Tatiana Salem Levy, que escreve sobre a morte e a herança a partir de uma leitura do Diário de Kafka. Não por isso a voz de Levy destoa dos demais ensaios, muito pelo contrário, mostra-se em perfeita consonância com o coro de vozes regidas por Parreira Duarte, sendo citada por esta desde a apresentação do volume, bem como por outras vozes em vários outros ensaios. Tatiana Salem Levy parece dar o tom exato do livro quando considera que a “linguagem literária tem na impossibilidade a sua possibilidade” e que “ela deve o seu sentido não ao que existe, mas ao recuo diante da existência”, visto que “está ligada ao vazio, a uma falta essencial” (p. 421). Diante disso, Levy considera que não se escreve para se salvar, mas para aprender a morrer e esse aprendizado depende de como se lida com a relação entre escrita e herança. Embora esta seja imposta, continua Levy, “quem define a direção a ser seguida é o herdeiro, aquele que conversa com o fantasma” (p. 428). Para Levy, a “obra de Kafka se constrói como a elaboração de uma herança” (p.428), o que poderia ser estendido em reflexo a toda produção literária que só pode “ser fiel sendo infiel” (p.428).
Ao atentar para a relação entre herança e escrita e para a função da interpretação enquanto elaboração da tradição, Levy lança luzes sobre o papel dos próprios ensaios que compõem o volume, sobre o lugar da interpretação que se coloca entre a literatura e o vazio que ela preenche e de onde ela emana. Nesse sentido, a própria existência desse livro de ensaios sobre morte e literatura sugere a presença de um lugar especial que se situa entre Orpheu e Perséfone, o lugar de Hermes. Segundo uma das versões da mitologia, Hermes, o mensageiro dos deuses e, para alguns, a origem do termo hermenêutica, teria sido o primeiro a ir buscar Perséfone ao reino dos mortos, acompanhado por Deméter. Se a alegoria serve, é para chamar a atenção para o lugar da interpretação entre a morte e a literatura. Em certo sentido, a interpretação é anterior e posterior à literatura. A interpretação é constitutiva da literatura não apenas porque esta precisa lidar com sua herança, mas porque reserva um lugar àquela em seu devir. E é a esse devir que pertence a arte de que temos excelentes exemplos nos ensaios que compõem o presente volume.
DUARTE, Lélia Parreira (org.) De Orfeu e de Perséfone: morte e literatura. Cotia, SP: Ateliê Editorial; Belo Horizonte, MG: Editora PUC Minas, 2008. (448 pp.)



